São dois braços, são dois braços: servem para dar um abraço assim como quatro braços servem para dar dois abraços e assim por aí fora
até que quando for a hora
vão ser tantos os abraços
que não vão chegar os braços
prós abraços.
não são insectos, são pessoas pequeninas que trazem nos olhos o preto da noite tão intenso como o sexo, como a magia das feiticeiras já queimadas.
As carochinhas não são insectos, são pessoas pequeninas que trazem nos olhos o brilho das fadinhas e dos duendes, do riso e das brincadeiras.
As carochinhas não são insectos são pessoas pequeninas que trazem nos olhos a inquietação da vida, da descoberta...
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços...
Florbela Espanca
Quando os corpos dançam, as sombras caem aos seus pés. E rastejam, perseguem-se, vagueiam entre os móveis pálidos. Colam-se ao papel de parede desbotado, deslizam pelo piso desgastado, pelas cadeiras solitárias, sentadas a mesas vazias e ordinárias, onde nunca ninguém amou. Movem-se, mesmo quando o ritmo cessa, porque as sombras vivem dos corpos e os corpos não têm pressa. Vibram no salão, ao mesmo tempo que as sombras abrem caminho pelo chão. Não é a música que os alimenta, nem a luz tímida, o que os liberta. As sombras denunciam os corpos, que seguem a valsa lenta. É um tango fútil, sem consciência, de corpos ávidos de atenção. É uma sede contínua, infinita. E quanto mais se bebe, mais insaciável fica. É um frio que se cola à pele, e não se apaga. Um frio que nem o fogo do sangue mata. É a dança dos corpos, (o desfecho) das sombras. Não há nada que se compare ao silêncio entre notas, à perfeição do movimento das cordas, dos sopros metálicos e precisos, dos timbres quentes, ensaiados… E a tua sombra, a meus pés.
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